quarta-feira

Historico do Pavilhao Japones


O Pavilhão Japonês no Ibirapuera: um marco entre dois povos


Fonte Informativo do Arquivo Historico Municipal de Sao Paulo Ano 3 no. 18 Edicao tematica sobre 100 anos de Imigracao Japonesa


http://www.arquiamigos.org.br/info/info18/i-manu.htm



Ao lançarmos um olhar mais atento sobre o conjunto de edifícios existentes no Parque do Ibirapuera, uma grande surpresa nos é apresentada. Nesta área, onde o modernismo das décadas de 1950 e 1960 se faz presente com toda a sua grandeza, uma obra em especial se destaca, tendo em vista a sua simpática discrepância. Trata-se do Pavilhão Japonês, edifício contemporâneo aos demais ali presentes, posto que construído na mesma época em que todo o parque estava sendo implementado.

Além desse aspecto, o inusitado se faz presente sob outro ponto de vista, ou seja, por que apenas um Pavilhão Japonês, isolado e desacompanhado de similares como um pavilhão italiano, um espanhol ou um português, por exemplo? Em outras palavras, por que este exemplar único naquele cenário?

De fato – e aqui abusando do direito de conjeturar –, caso o Pavilhão Japonês não tivesse sido construído há 54 anos atrás, hoje dificilmente ele o seria, ou pelo menos não no Parque do Ibirapuera. Entretanto, lá ele se encontra, majestoso, como que a desafiar o seu entorno e sendo, ele próprio, uma grande atração e um marco de referência, seja para o parque, seja para a cidade, e mesmo para toda a nação, pois estamos diante de um monumento que consolidou, em 1954, as relações afetivas entre o Brasil e o Japão.

É certo, portanto, que foi somente numa conjuntura favorável, ou num contexto histórico único, que o projeto do Pavilhão Japonês encontrou condições propícias para sua concretização. Acompanharemos de ora em diante este processo.

Década de 1940: uma conjuntura adversa

As relações entre o Brasil e o Japão se desgastaram por conta da II Guerra Mundial. Em 1942, com a entrada do país no conflito, os laços entre as duas nações foram rompidos. Dentre os imigrantes provenientes do Eixo (Itália, Alemanha e Japão), os japoneses se tornaram um alvo fácil para constantes discriminações e cerceamentos. Era o chamado perigo amarelo, este repercutido em artigos pela imprensa.

Colaborando com esta situação de animosidade estavam, também, algumas características marcantes da primeira geração de imigrantes japoneses que vieram para o Brasil, quais sejam a de cultivar seus valores e tradições em solo estrangeiro, bem como uma peculiar compleição que se traduziam, pelo menos no entender de grande parte da população, numa falta de integração na comunidade. Por certo que na raiz desse problema mais pesavam as fortes diferenças entre as duas culturas: a brasileira e a japonesa, com língua e costumes bastante distintos.

Entretanto, com o término da guerra teve início um período de distensão, este coroado com o reatamento das relações diplomáticas a partir da assinatura do Tratado de São Francisco, no dia 28 de abril de 1952.


Uma sugestão que veio do Japão

Por essa mesma época, em São Paulo, avizinhavam-se os festejos que comemorariam os 400 anos de fundação da cidade, evento este cujo ápice ocorreria em 1954. Os preparativos para o grandioso acontecimento começaram ainda em 1948 e já previam, desde o início, uma celebração que deveria ecoar para muito além das delimitações geográficas paulistanas, como bem pontuou Silvio Luiz Lofego.

Não por outro motivo, poucos meses depois do reatamento das relações diplomáticas entre o Brasil e o Japão – mais precisamente no dia 10 de julho de 1952 –, a comissão organizadora dos festejos pelos 400 anos da cidade recebeu um ofício assinado pelo industrial Giannicola Matarazzo, ele irmão de Ciccilo Matarazzo (Francisco Matarazzo Sobrinho), então presidente da Comissão do IV Centenário.

Apesar de não figurar como membro oficial do comitê, Giannicola prestava sua colaboração ao grupo e aproveitava suas viagens pelo Brasil e por outros países para divulgar o evento e angariar apoios. E foi justamente numa dessas incursões, realizada ao Japão no primeiro semestre de 1952, que Giannicola teve a oportunidade de se encontrar com algumas autoridades e empresários daquele país. Como resultado dessas reuniões, Giannicola apresentou um relatório onde, dentre as muitas sugestões que ouviu, destacou o desejo dos japoneses em construírem "uma casa típica do Japão, com um grande jardim japonês que permitiria a montagem em ambiente natural de uma exposição de bonsai”. Ao lado do edifício, sugeriram ainda, poderia ser erigido “um restaurante típico que funcionaria para o público, durante o período das celerações e das exposições” com pessoal de cozinha e de serviços vindos diretamente do Japão.

Seguindo em suas explicações, Giannicola fez um breve detalhamento da obra que, como frisou, teria desde o início um caráter definitivo e não provisório. Construído com madeiras típicas do Japão, o projeto poderia ser entregue a um profissional de prestígio, tendo sido lembrado o nome do arquiteto Junzo Sakakura (1901-1969) que já estivera no Brasil em 1951 como delegado oficial da Bienal e que, naquela época, era considerado como um dos maiores expoentes da moderna arquitetura japonesa.

Todas essas sugestões foram bem recebidas pela Comissão do IV Centenário até porque, como frisou o Dr. Horácio Costa, a participação do Japão seria de “suma importância não só por se tratar de um país com grandes possibilidades industriais, o que seria relevante para a exposição, como pelo grande número de súditos residentes no Brasil, constituindo uma das mais numerosas colônias estrangeiras” de São Paulo.

Pensava-se, até então, que o Japão se faria representar com mais ênfase na exibição industrial programada para ocorrer no Pavilhão das Indústrias (atual prédio da Bienal), que ainda estava sendo construído. A parte cultural ou folclórica, como se dizia, complementaria o evento, então chamado de Exposição Internacional de São Paulo.

A colônia japonesa de São Paulo

Divulgadas essas primeiras informações, imediatamente a Câmara de Comércio Japonesa estabelecida em São Paulo, dirigiu um oficio ao Sr. Francisco Matarazzo Sobrinho no sentido de obter maiores dados sobre a programação e, através de seu presidente Sakuro Hase, informou que a instituição daria todo o apoio ao certame.

Tendo em vista essa manifestação, bem como os acontecimentos subseqüentes, podemos afirmar que a Câmara de Comércio não expressava somente a opinião de seus membros senão, também, a de boa parte da colônia. De fato, poucas eram as entidades representativas dos japoneses naquela época, até porque, como visto, o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países era muito recente. Nesse contexto, a Câmara de Comércio, na ausência de outros órgãos, cumpria também o papel de atender outras demandas dos japoneses em São Paulo. Não por outro motivo o Sr. Sakuro frisou, naquele mesmo ofício, que tomava a liberdade de comunicar ao comitê dos festejos a “resolução da Diretoria da Câmara de Comércio em cooperar, junto com a Colônia Japonesa aqui domiciliada, nas comemorações do IV Centenário.” (meu destaque).

A partir desse momento, os festejos pelos 400 anos da cidade tomaram um outro sentido para os japoneses residentes em São Paulo. Tendo em vista o momento de distensão, bem como o desejo dos imigrantes e de seus descendentes em reafirmar a integração e impulsionar o clima de paz e harmonia, as comemorações serviram como um catalisador para que a comunidade se reunisse em torno desse ideal. Mais ainda, o evento poderia impulsionar uma desejada conciliação no seio da própria comunidade, comprometida que estava por ações então recentes de grupos radicais como a organização Shindo Renmei. Assim, e diferentemente do que ocorria com os demais grupos de imigrantes, a colônia japonesa vislumbrou nesse acontecimento uma grande oportunidade para demonstrar, a partir de São Paulo, o fim dos ressentimentos, fossem eles internos ou externos ao grupo, curando assim antigas feridas.

Por outro lado, também interessava às várias esferas do governo brasileiro essa demonstração de apreço. O Japão, por essa época, já experimentava um grande desenvolvimento industrial e, politicamente, o relacionamento entre os dois países necessitava de exemplos concretos para a consolidação de uma relação antes abalada.

A participação dos japoneses nos festejos do IV Centenário se afigurava assim num ato que deveria ultrapassar a comum troca de gentilezas para se transformar num evento diplomático e, por isso, também político.

Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa

A partir do relatório de Giannicola Matarazzo e do ofício da Câmara de Comércio Japonesa (todos eles datados de julho de 1952), a comunidade japonesa residente na Capital e no interior promoveu um intenso debate e, meses depois, já se achava constituída a Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa Pró IV Centenário de São Paulo.

Sob a direção do Dr. Kiyoshi Yamamoto – agrônomo e empresário muito respeitado na colônia –, a Comissão reuniu os mais destacados membros da comunidade, alguns deles provenientes da própria Câmara de Comércio Japonesa como o Sr. Kunito Miyasaka (do Banco América do Sul e presidente da Câmara de Comércio entre 1951 e 1952), Sakuro Hase (da Comercial Hase e presidente da Câmara de Comércio entre 1952 e 1955) e Senichi Hachiya (da Hachiya Importação e Exportação e presidente da mesma Câmara entre 1955 e 1965). Num esforço conjunto, a Comissão conseguiu reunir ainda outros empresários e líderes de diversas áreas como os senhores Kinroku Awazu, Takuji Fujii (da Associação Cultural Okayama Kenjin do Brasil), Kazuki Nishimura, Jorge Suguita, Shozaburo Yamaguchi, Seian Hanashiro (da Associação Okinawa Kenjin do Brasil), Toshio Takeda (do Banco América do Sul) e Takeshi Suzuki (artista plástico e engenheiro-arquiteto, o primeiro japonês a se graduar em arquitetura no Brasil pela Faculdade Mackenzie em 1934), dentre muitos outros.

O Pavilhão

A mobilização foi tão intensa que, em janeiro de 1953, a associação já apresentava sua primeira proposta para a participação nos festejos: a edificação de um Pavilhão de Belas Artes Japonesas, que seria ladeado por um jardim também em estilo nipônico. Toda a construção seria erguida no “recinto da Exposição Internacional do IV Centenário”, ou seja, no Parque do Ibirapuera. Tomava forma, portanto, a sugestão ouvida por Giannicola no Japão, mas agora com uma diferença fundamental: os trabalhos e os custos das obras seriam integralmente assumidos pela comunidade japonesa residente no Brasil.

Entretanto, essa primeira sugestão não receberia um parecer favorável, já que o intento vinculava esta construção à cessão, em comodato, de uma área de aproximadamente 10 mil metros quadrados no interior do Parque para a associação. Era algo inexeqüível naquele momento, posto que a Comissão do IV Centenário não detinha poderes para tanto, cabendo-lhe apenas o direito de uso do espaço.

01-Oficio - comodato - 01.1953


Informado desse problema, o Sr. Kinroku Awazu, então diretor e vice-presidente em exercício da Comissão Colaboradora, retificou a redação do ofício e fez constar que a solicitação visava tão somente uma permissão para a “construção de um pavilhão ladeado de jardim japonês para efeito de nele serem expostos objetos das belas artes japonesas”, ficando entendido que, terminado o evento, o edifício seria doado à municipalidade.

A par dessas explicações – que não mais envolviam o pretendido comodato –, o pedido foi aprovado.

Mudança de planos

Além da retificação promovida quanto à cessão da área, logo em seguida uma outra alteração seria levada a efeito, e agora com respeito ao próprio projeto do pavilhão. Desde o início, como vimos, a intenção era a de se construir um edifício tipicamente japonês. Entretanto, e a partir das reuniões ocorridas com Comissão do IV Centenário, o plano quedou bastante modificado. Ao contrário do pavilhão, a Colônia Japonesa propunha agora construir o “hall de máquinas” anexo ao Palácio das Indústrias (atual Pavilhão da Bienal) e que, durante os festejos, seria utilizado exclusivamente para exibir produtos japoneses.

Os documentos custodiados pelo Arquivo Histórico Municipal não nos oferecem maiores explicações sobre esta ocorrência, mas tudo leva a crer que tal atitude foi, na verdade, uma estratégia que visava facilitar a aprovação da obra. E eis que, daí por diante (entre fevereiro e agosto de 1953) o pavilhão perderia a sua principal característica, posto que foi transformado em um hall de máquinas, e cujo projeto estaria a cargo da municipalidade. Nessa nova situação, a Comissão Colaboradora apenas arcaria com os custos da obra, esta já bastante desfigurada tendo em vista a sugestão inicial.

Considerada como uma solução prática e simpática pelo comitê do IV Centenário, as conversações prosperaram e isso a tal ponto que minutas de acordos entre as partes começaram a ser redigidas. Vale frisar que o pavilhão japonês, naquele momento, não mais existia como tal, transformado que foi em Pavilhão das Máquinas.

Correção de rumos

Por certo que esta radical alteração nos planos não agradou a comunidade, motivo pelo qual a Comissão da Colônia Japonesa se viu obrigada a voltar atrás e corrigir os rumos das negociações. Após uma reunião realizada com o Sr. Francisco Matarazzo Sobrinho no dia 1º de setembro de 1953, uma nova proposta foi encaminhada:

02-Oficio - 09.1953


Este projeto, como se vê, abandonava a idéia do hall de máquinas para voltar ao plano original de um pavilhão tipicamente japonês e, mais ainda, frisava que tal construção seria levada a efeito por conta e risco da associação, o que significa que seus membros assumiriam todas as despesas. A municipalidade, por sua vez, rapidamente aprovou o novo desenho com seguinte despacho:

O novo projeto levava a assinatura do arquiteto Sutemi Horiguchi (1895-1984), especialmente contratado no Japão, e era uma versão do Palácio Katsura, a residência de verão dos imperadores japoneses construído no século XVII na cidade de Kioto.

03-Projeto do pavilhão - 06.1953


As obras foram cercadas do maior cuidado possível. Fechado o contrato com a empresa Takenaka Komuten S/A, de Tóquio, ao custo de US$ 57.382, o pavilhão foi totalmente construído no Japão para, em seguida, ser desmontado. As peças foram então embarcadas no navio Wakô-Maru que zarpou de Yokohama no dia 21 de fevereiro de 1954. Ao chegar no porto de Santos no dia 5 de abril do mesmo ano, todo o material foi então encaminhado para São Paulo, ocasião em que o pavilhão começou a ser reerguido no Ibirapuera. Calculadas todas as despesas, o custo total da obra subiu para US$ 76.200, aqui incluindo o contrato com a Takenata, mais todo o material utilizado, já que até as pedras e pedregulhos ornamentais para o jardim japonês foram colhidas no Rio Kamogawa, de Kyoto.

04-Aquarela do pavilhão


05-Projeto paisagístico do Pavilhão Japonês no Ibirapuera-1954


Em maio de 1954 os trabalhos já estavam bem adiantados, o que motivou a realização de uma assembléia geral extraordinária da Comissão Colaboradora Japonesa. A programação incluía também uma visita ao Parque do Ibirapuera para que todos pudessem observar o avanço das obras. Vindos do interior e da Capital, a comitiva somava mais de 300 pessoas que, do Parque D. Pedro II, seguiram em ônibus especialmente preparados para a visita. Não perdendo o momento a municipalidade, através da Comissão do IV Centenário, entendeu ser esta uma excelente oportunidade para homenagear aqueles “dedicados colaboradores, que tantos e tão profícuos esforços vêm desenvolvendo no sentido de dar à participação da colônia japonesa nos festejos do IV Centenário um especial relevo”, explicou José Roberto W. Penteado, então diretor de relações públicas do evento. Como resultado, o comitê ofereceu um coquetel aos participantes no dia 30 de maio de 1954, um domingo, no então Palácio das Nações (atual sede do Museu Afro Brasil).

06-Registro de Takeshi Suzuki-1935


Em julho de 1954, as obras já estavam em fase de acabamento e, pouco tempo depois, a 21 de agosto de 1954, o pavilhão seria aberto ao público como parte da Feira Nacional e demais exposições. A Feira Internacional, por sua vez, somente seria inaugurada em novembro do mesmo ano.

Sociedade Paulista de Cultura Japonesa

Encerradas as comemorações do IV Centenário no dia 23 de maio de 1955, o Pavilhão Japonês foi doado à municipalidade. A administração e conservação de todo o conjunto, porém, permaneceram a cargo dos membros da Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa como, aliás, ocorrera desde o início das obras.

Entretanto, e diante da inexistência de um instrumento legal que consolidasse essa relação, os membros da Comissão Colaboradora requereram, em agosto de 1955, a constituição do Comitê Administrador do Pavilhão Japonês, até porque aquela Comissão, terminadas as obras e os eventos do IV Centenário, estava sendo dissolvida. Composta por antigos membros da associação, o novo Comitê ficaria incumbido da administração de todo o conjunto, ou seja, dos jardins, do edifício principal e seus anexos, bem como das obras de arte ali expostas. O pavilhão, como foi lembrado pela comunidade japonesa, era muito especial, construído com madeira típica e “obedecendo a um método e sistema rigorosamente tradicionais do Japão antigo, o mesmo acontecendo com os acabamentos e as decorações”. Assim sendo, tornava-se “imperioso e irrefutável que a sua conservação e futuros reparos fossem feitos pelos artesãos japoneses, única mão de obra capaz de dar conta de tal tarefa altamente especializada e completamente fora do comum” no Brasil e em São Paulo, argumentaram.

Mas, fora do comum era também esta proposta aos olhos da municipalidade naquela época. Num tempo em que tais acordos entre o governo e a iniciativa privada eram praticamente inexistentes, ou pelo menos nessa esfera em particular, a resposta da prefeitura foi lacônica: tal pretensão afigurava-se como “praticamente inexeqüível, senão legalmente impossível...”.

Estabelecido o impasse, a municipalidade resolveu por bem consultar o cônsul geral do Japão em São Paulo, o Sr. Yuzo Isono. Após considerar os argumentos de ambas as partes, o cônsul respondeu que a administração e conservação do Pavilhão Japonês deveriam ser entregues a uma comissão integrada pelos principais membros da Comissão Colaboradora, que se dissolvia. E assim foi feito: a constituição da nova comissão foi aprovada no dia 30 de novembro de 1955.

Entretanto, todos os trabalhos antes desenvolvidos, bem como a união da comunidade japonesa em torno daquele ideal, não poderia dispersar-se. Pensando nisso, o Sr. Kiyoshi Yamamoto, ao mesmo em que tratava da questão do Pavilhão, liderou o grupo remanescente para a fundação da Sociedade Paulista de Cultura Japonesa, fato este concretizado a 17 de dezembro de 1955. De fato, a mobilização precisava continuar já que, em 1958, seriam comemorados os 50 anos da imigração japonesa ao Brasil. Posteriormente, a instituição seria renomeada como Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa (1968) e, em 2006, como Bunkyo-Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social.

07-Estatuto da Sociedade Paulista de Cultura Japonesa


Pavilhão Japonês: o esforço de uma comunidade

Não obstante o detalhamento histórico aqui exercitado, eis que ainda resta uma última questão a ser analisada, ou seja, a respeito das dúvidas que ainda persistem a respeito dos verdadeiros empreendedores dessa grande obra.

Tendo em vista a sua simbologia, bem como a magnitude que alcançou ao longo do tempo, o Pavilhão Japonês do Ibirapuera costuma ser lembrado com freqüência pela imprensa (especialmente nesses 100 Anos da Imigração Japonesa ao Brasil) e sendo, ele próprio, um tema constante de artigos e publicações especializadas. Entretanto, quase que invariavelmente os autores contemporâneos costumam reputar sua construção ora à colônia japonesa brasileira, ora ao governo do Japão, sendo mais constante a informação de que teria havido a participação de ambos.

Apesar das incertezas correntes, nos parece que ao leitor mais atento deste artigo as dúvidas a respeito dos verdadeiros protagonistas dessa obra não mais existam. Mas, diante de outras análises, sabemos que algumas imprecisões poderiam persistir. Assim sendo, dedicaremos mais algumas linhas a este tema ainda candente. E aqui, é claro, estamos nos referindo aos esforços promovidos pela colônia japonesa paulista (da Capital e do interior), bem como a de outros membros espalhados pelo Brasil.

08-Ofício encaminhado pela Sociedade Paulista de Cultura Japonesa ao Sr. Francisco Matarazzo Sobrinho-1960


Tomando como exemplo algumas afirmações como a de que “o Pavilhão foi construído conjuntamente pelo governo japonês e pela comunidade nipo-brasileira” ou a de que “a Comissão Colaboradora da Colônia Japonesa Pró-IV Centenário de São Paulo [foi] co-responsável pela criação do Pavilhão Japonês, em 1954” (todas elas inscritas no livro “Pavilhão Japonês – Tradição e Modernidade”, páginas 8 e 19, respectivamente) poderíamos supor que os custos da obra foram assumidos pelas duas instâncias. Entretanto, não é esta a realidade que as fontes documentais nos deixam antever. Por outro lado, as passagens acima transcritas também não estão totalmente incorretas, senão vejamos:

Um dos primeiros reconhecimentos de que o Pavilhão teve os seus custos integralmente assumidos pela colônia japonesa brasileira pode ser encontrada na frase proferida pelo Sr. Yuzo Isono, então cônsul geral do Brasil em São Paulo, que, ao defender a formação de um grupo para a administração e conservação da obra, disse textualmente:

Ou seja, o próprio cônsul, uma autoridade do governo japonês, reconhecia que a construção do Pavilhão foi uma obra empreendida (entenda-se aqui “custeada”) unicamente pela Comissão Colaboradora através de doações de seus membros.

Por outro lado, o Dr. Kiyoshi Yamamoto (mentor e presidente da Comissão Colaboradora) também frisou em diversos momentos que se devia única e exclusivamente à “colônia japonesa no Brasil a construção do pavilhão e demais dependências” e que, por isso, era ela a legítima doadora das obras para a municipalidade paulistana. (Frase retirada da proposta para a constituição do Comitê Administrador do Pavilhão Japonês, Processo 1629/53, fls. 129 e 130, 29/08/1955).

Ora, nos parece que as dúvidas a respeito dos verdadeiros empreendedores aqui desaparecem, pois os documentos nos mostram que as despesas, naquela época calculadas em US$ 76.200, foram integralmente assumidas pelos nipo-brasileiros, não havendo qualquer aporte financeiro por parte do governo japonês.

Entretanto, isso não significa que houve desinteresse por parte do Japão nessa empreitada. Ao contrário, todos os contatos com a empresa Takenaka Komuten, bem como a tramitação dos documentos referentes à exportação do material para o Brasil, foram integralmente assumidos pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros daquele país; além disso, o Consulado Japonês em São Paulo figurou como a instituição receptora das peças do pavilhão em território brasileiro. Toda essa ação foi necessária para que os negócios fossem resolvidos rapidamente, tendo em vista os prazos bastante escassos para a concretização da obra no Parque do Ibirapuera.

Após este detalhamento a respeito da participação do governo japonês, gostaríamos de lembrar uma última frase do Dr. Kiyoshi Yamamoto. Disse ele, no dia 7 de novembro de 1954, por ocasião da remessa dos dólares à empresa Takenaka Komuten:
    Uma cousa é certa, todos os dispêndios feitos pela Colaboradora no desempenho de sua missão ou atuação, inclusive a supra dita quantia a ser remetida para o Japão, [foram] custeadas exclusivamente pelos fundos angariados na forma de contribuições da colônia japonesa... (Documento apenso ao Processo 1629/53)
Esclarecidas algumas das questões que envolveram a construção do Pavilhão Japonês no Parque do Ibirapuera, fazemos nossas as palavras do cônsul Yuzo Isono quando o mesmo se reportou à magnitude dessa obra: “fazemos votos para que o Pavilhão continue sendo para sempre um centro de incentivo das relações culturais e amistosas entre o Brasil e o Japão.” (Yuzo Isono, 25 de novembro de 1955).


Luís Soares de Camargo

Texto elaborado com a colaboração de
Celina Yoshimoto, Myrthes Mitue Samoto e Celso Eduardo Ohno.


Fontes primárias
  • Arquivo Histórico Municipal de São Paulo. Fundo Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo. Processos: 932 (1952), 1629 (1953), 3534 (1954) e 3781 (1954).
Bibliografia
  • BUNKYO – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social. Pavilhão Japonês – Tradição e Modernidade. São Paulo: s.ed., 2007.
  • LOFEGO, Silvio Luiz. IV Centenário da cidade de São Paulo – uma cidade entre o passado e o futuro. São Paulo: Annablume, 2004.



Para citação adote:

CAMARGO, Luís Soares de. O Pavilhão Japonês no Ibirapuera: um marco entre dois povos. INFORMATIVO ARQUIVO HISTÓRICO MUNICIPAL, 3 (18): maio-jun.2008

Nenhum comentário: